Uma contribuição do Oriente para pensar a Ecologia

Do site: Rádio Mundo Real

André Guerra – Amigos da Terra Brasil

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KANDY, SRI LANKA – Entre os dias 30 de setembro e primeiro de outubro, em Kandy, no Sri Lanka, foi realizada a “Conferência internacional sobre o papel das comunidades na tomada de decisão ambiental”, tendo como um dos focos a construção do conceito Democracia Ambiental, um desdobramento significativo, amplo e inclusivo da perspectiva democrática. A conferência foi uma prévia da assembleia internacional bianual da federação de organizações ecologistas Amigos da Terra Internacional, que ocorrerá no país.

Já na sessão de abertura, uma interessante proposta: representantes de quatro religiões expuseram a questão dos direitos ambientais na perspectiva de cada uma de suas respectivas crenças. À primeira vista soou curioso que o debate ambiental seria iniciado por contribuições vindas de tradições mais ou menos exóticas para o ocidente como a budista, a hindu, a muçulmana e mesmo a perspectiva cristã desde um enfoque oriental.

Kalupahana Piyarathana Thero – coberto com um característico manto bordô – iniciou sua fala mansa dizendo que na perspectiva budista o ser humano não é nada mais do que um produto da natureza. Nesse momento ficou fácil até para a lógica de um ocidental compreender que, assim como no oriente não há a separação entre sociedade e natureza, também a religião não passa de outra face da filosofia.

Na verdade, quem sabe a palavra “religião” tenha sido demasiadamente massacrada no ocidente, a tal ponto que é possível ter dúvidas ao referir o mesmo termo para discutir a sabedoria com que, por exemplo, o Vedda hindu, Kalupahana Piyarathana Thero, expressou que, para o hinduísmo, todas as criaturas animadas ou inanimadas são formas da manifestação de deus e que, portanto – com relação ao que diz respeito aos seres humanos – só nos compete tornar o mundo um lugar mais bonito, uma vez que, através da beleza, as formas elementares podem se manifestar em sua plenitude. Obviamente o conceito de beleza apresentado por ele ultrapassa uma supérflua idolatria da forma. Nessa perspectiva, o ser humano transcende a si mesmo quando deposita seu ser em experiências estéticas, sejam elas esculturas, artesanatos ou pinturas, sejam elas cantos, rituais ou danças. Mas essa é uma discussão muito mais complexa do que seria seguro iniciar agora.

A busca por uma vida completa também é a proposta do islamismo. A religião extrai do Corão os elementos de uma filosofia que entende como propósito da existência humana nada mais do que prolongar e expandir a vida; tornando, portanto, a proteção da Terra uma condição absoluta e primeira.

A partir de uma perspectiva oriental, até o cristianismo ganha novas cores aos olhos ocidentais. O representante da religião predominante no ocidente fez questão de pontuar uma importante controvérsia que coloca o cristianismo como sendo uma religião em que o homem domina o meio ambiente a partir da autoridade concedida por deus. Ele diz que a questão é completamente diferente: o correto seria que, ao contrário, os homens e mulheres são servidores da Terra, não seus governantes.

Incontestavelmente, o oriente atribui aos representantes de suas religiões um papel bastante diverso daquele assumido pelos ocidentais, ao menos em grande parte do ocidente. Desde uma perspectiva oriental, estes são sábios que têm acesso a um repositório de saber transmilenar e que podem contribuir para iluminar os caminhos durante as curvas dos obscuros limites da razão. Além disso, essa perspectiva tem interessantes reflexões que ajudam a recolocar no centro do debate humano o estudo da nossa grande casa, ou seja, a Ecologia; não uma ecologia qualquer, mas uma eminentemente política.

A preocupação com a Terra, não como metáfora, mas como objeto concreto, destaca-se como fundamental porque a constatação da necessidade de uma existência sustentável só tem valor caso, simultaneamente, considerarmos seriamente que não há sustentabilidade possível fora do único planeta que temos e a partir do qual nós tornamo-nos o que somos. E mesmo se houver uma tal possibilidade alternativa, essa ainda parece ser uma realidade que continuará inviável por mais tempo do que o tempo que a humanidade possivelmente tem para resolver entre si uma política na Terra, pela Terra e para a Terra, cuja vitalidade consistiria em nada menos do que ser capaz de garantir a sobrevivência plena da vida em toda a sua diversidade e assegurar o direito à fruição de uma vida boa para todos os seres do mundo.

Imagen: André Guerra – Amigos da Terra Brasil


Zona Sul pra quem?

Produção audiovisual vai ao epicentro da especulação imobiliária da cidade de Porto Alegre revelar os impactos que atingem a população da região sul e mostra os principais desdobramentos que ameaçam atingir toda a cidade.

 

Muitas coisas passam despercebidas no processo de expansão da nossa cidade. Uma dessas coisas é a não muito recente exaltação da zona sul de Porto Alegre como sendo um paraíso esquecido em meio à selva de pedras. Somos levados a crer estar deixando escapar nossa “qualidade de vida” por estarmos vivendo no núcleo do caos, em meio a uma rotina estressante, cinza, poluída, superlotada e mecanizada. Ao mesmo tempo, somos persuadidos que logo ali depois dos belos morros do nosso município existe um Éden, uma pílula de vida ao alcance das nossas mãos.

Dizem que cada escolha é uma renúncia. Mas com a região sul Porto Alegre seria diferente. Esse paraíso permitiria termos ao mesmo tempo uma vida bucólica sem renunciarmos nossas relações citadinas. Em outras palavras, uma vida perfeita. Infelizmente, Freud já sentenciou que só podemos ter prazer diante do contraste, ou seja, a almejada perfeição e felicidade que parece estar logo ali, sempre revela novas contradições quando saímos da fantasia e finalmente pousamos sobre a realidade. E é dessa realidade que queremos falar agora.

Tivemos a curiosidade de conhecer como a VENDA da ilusão de perfeição e felicidade duradoura transformou a antiga zona rural de Porto Alegre no mais assediado alvo da especulação imobiliária da cidade. Com uma equipe formada por três organizações (Amigos da Terra Brasil, Coletivo Catarse e Instituto Econsciência, com o financiamento do Centro de Apoio Sócio-ambiental) fomos escutar das pessoas que viveram toda a sua vida na ZONA RURAL de Porto Alegre o que elas perceberam e sofreram com os impactos advindos da transformação daquela região em um apêndice com “qualidade de vida”  para cidade. Fizemos uma semana de imersão na região: mais de 20 horas de gravação, muitos relatos, imagens, entrevistas e denúncias. Até o lançamento do vídeo-documentário, que ocorrerá na primavera, iremos divulgar prévias dentre os principais temas abordados: o avanço da especulação imobiliária na região; os principais interesses e impactos desencadeados pela alteração do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Porto Alegre que transformou a, até então, zona rural em rururbana; a potencialização do processo de urbanização precoce da região amparada na torrente de violações de direitos e regras trazida pela Copa de Mundo de 2014; a manutenção de uma cultura higienista na cidade que desloca para as margens e periferias sempre mais longínquas a população mais vulnerável; os desequilíbrios ambientais decorrentes da implementação de grandes empreendimentos em uma região que protege a maior parte da diversidade biológica da cidade; a transformação estrutural, social, cultural e econômica da região que poderá comprometer não só a estabilidade da comunidade local, mas de toda a população de Porto Alegre que reconhece a indissociável complementaridade dos contextos rural-urbano; e muitos outros.

O contexto

Porto Alegre conta com um terço de suas áreas com características naturais e rurais. Além disso, o município é o segundo maior abastecedor da CEASA-RS dentre todos do estado gaúcho. A região situada ao sul da cidade funciona como o cinturão verde da cidade, ou seja, como um território ocupado predominantemente por parques, chácaras, reservas ambientais, jardins, pomares. É o cinturão verde, por exemplo, que resguarda as nascentes de água potável que abastecem toda a população; também é nesse local que ocorre a recuperação atmosférica do ar poluído e há a conservação da biodiversidade da cidade.

Ao contrário de uma visão “anti-progressista”, a crítica à expansão da zona urbana em direção à antiga zona rural de Porto Alegre traz discussões fundamentais ao debate público acerca do modelo de cidade e desenvolvimento. Estima-se que Porto Alegre sofra um déficit habitacional em torno de 38 mil habitações (IBGE, 2010). Ao mesmo tempo, a capital foi a que menos cresceu em 10 anos, apenas 3,6%, também segundo dados do IBGE de 2010. Com base nesses dados, verifica-se que a expansão das residências sobre a região sul não se sustenta a partir de uma necessidade real da população, uma vez que o déficit habitacional concentra-se, sobretudo, na camada mais pobre, a qual, ao ser deslocada mais de 30 Km do centro da cidade, sofreria com a ausência completa de infraestrutura (saneamente básico, iluminação, vias, transporte, hospitais, postos de saúde, escolas, creches e postos de trabalho) daquela região. Além disso, um modelo de planejamento adequado para as cidades prevê que os locais dedicados à habitação se deem prioritariamente em áreas de ocupação intensa, no caso de Porto Alegre sobre as áreas próximas ao centro, deixando as áreas de ocupação rarefeita para atividades tais como a de produção agroecológica, o que é feito na região sul – aliás é de lá que vem a maioria dos produtos que abastecem as feirinhas agroecológicas do centro da cidade. Era exatamente esse o modelo da cidade que existia até a alteração do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental de Porto Alegre em 1999. Hoje se verifica os primeiros impactos diretos dessa alteração: uma vez que a população pouco cresce, as novas habitações apenas promovem uma migração interna, deixando milhares de imóveis desocupados, além de grandes vazios urbanos no centro da cidade; um grande aumento de fluxo na região sul, com a ampliação de vias que dão prioridade para veículos individuais em detrimento do transporte público, entre outros; Inclusive as áreas caracterizadas como de interesse social na região – destinadas às famílias removidas pelos impactos gerados pelas obras da Copa do Mundo – são colocadas em uma região absolutamente despreparada para tal contingente de pessoas, as quais deverão disputar com a população existente os parcos recursos do local.

Quem ganha com esse jogo? A especulação imobiliária. A cidade como um todo só tem a perder, já perdeu muito e continuará a perder se não forem tomadas iniciativas que coloquem o bem comum à frente dos interesses particulares, através da recuperação do poder público municipal como agente articulador e propositivo do desenho da cidade, obedecendo aos projetos construídos pelo interesse popular, não a partir dos acordos e diretrizes impostas pelas empreiteiras e financiadores de campanha.

Essa é uma parte da problematização que o vídeo-documentário “Zona Sul pra quem?” pretende apresentar. Em breve.


Conheça o Tratado Internacional dos Povos para o Controle das Empresas Transnacionais

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Você pode baixar o documento na íntegra aqui (em espanhol).

Ou para mais informações acesse o site: www.stopcorporateimpunity.org


A Copa que o mundo perdeu em Porto Alegre

 

Por André Guerra – Amigos da Terra Brasil – para Rádio Mundo Real 

O Brasil, assim como muitos outros países do mundo, está sendo inebriado por uma névoa de avanços, melhorias, conquistas e vitórias. Sem dúvida, isso é importante. Sem dúvida, muitas dessas conquistas não podiam mais esperar para se tornarem realidade. Sem dúvida, a tecnologia e o progresso aproximaram os distantes e possibilitaram impossíveis. Não é essa a questão. O fato é pensar: e os custos? O como? A que preço? À custa de quem? Sob qual mando? Através de qual lei? Para estabelecer qual ordem? Supondo qual futuro? Pensando em qual sociedade? Por meio de qual estatuto político?

Talvez nesse momento a questão não seja nos determos naquilo que está posto como afirmado e positivado sob os desígnios dos “avanços” e do “progresso”. Estamos avançando. Está bem. Deixamos como ponto pacífico. Mas avançando para onde? Estamos evoluindo, isso é certo. Recentemente uma bióloga me ensinou que a evolução dispensa qualquer juízo de valor. Ela não é moral. Ou seja, a evolução é um fato. Estamos evoluindo, porém, se para o bem ou para o mal, a História e historiadores que virão depois de nós é que dirá. Depois de nós quem? Do ser humano como espécie ou de grupos específicos como classe? Outra questão.

A verdade é que no presente estamos lidando não com o “nosso” futuro de forma genérica, estamos a cada momento também lidando com as possibilidades concretas e objetivas de escolher, especificamente, quem e a que preço poderá ou não ter um futuro. Ou seja, no presente estamos inventando o futuro e os futuros possíveis ou barrados na nossa História – ou arqueologia, quem sabe. Não podemos determinar ou controlar o futuro, isso parece certo; entretanto, podemos produzir e inventar o presente, o “nosso” presente, como indivíduo, grupo, coletivo, organização, comunidade, nação, sociedade ou espécie.

O que assistimos nesse triste vídeo-documentário “A Copa que o mundo perdeu em Porto Alegre”, produzido pelos Amigos da Terra Brasil, Coletivo Catarse e Comitê Popular da Copa Porto Alegre, em parceria com organizações e movimentos locais e nacionais é um episódio, um recorte, uma vírgula que conseguiu escapar das estatísticas para ganhar corpo, carne e sangue na singularidade dolorida de irmãos e irmãs, companheiros e companheiras de viagem. O que esse trabalho mostra não é a realidade, mas é o cotidiano de uma dezena de pessoas que não são o todo, mas sofrem um sofrimento que é compartilhado por uma infinidade de pessoas em cada um dos recantos de nossas cidades, estados, países e continentes. Ao ver isso parece difícil recusar a pergunta: o que estamos fazendo? Para o que estamos fazendo? Para quem estamos fazendo?

“Nosso endereço é descartável nesse Estado”

Nesse vídeo-documentário, em meio a um cenário de guerra, vemos estarrecidos a brutalidade com que casas numeradas vão sendo destruídas uma após a outra em nossas vilas de Porto Alegre. Isso não é um fato isolado[1] [2]. É contrastante no vídeo-documentário a delicadeza do homem que suavemente controla a brutalidade do trator colocando abaixo, não telhas e madeiras, não uma casa como objeto impessoal, mas sim o lar de uma família que naquele espaço, naquele território, construiu e referenciou a sua vida – não uma vida biológica e descartável que vive e morre indiferentemente –, mas uma vida como potência de viver, criar e construir realidades. Uma vida com paixão, sonhos, medos e ideais. Uma vida igual a de todo mundo, e justamente por ser igual, absolutamente diferente de qualquer outra.

No momento em que policiais federais fortemente armados e apropriadamente vestidos de preto dão cobertura aos burocratas que convenientemente usam a estupidez do sistema e das normas a favor de sua lamentável e não menos imbecil mesquinhez, estamos diante de um problema, não só de ordem política, mas estrutural.E é exatamente isso que a resistência da Copa do Mundo 2014 vem denunciar [3] [4]. Convivemos em nossas cidades com uma higienização de proporções inimagináveis. Evidentemente, elas não surgiram com a abertura da Copa do Mundo FIFA 2014 e infelizmente não irão embora com ela. Ela é uma prática que, isso sim, por um lado, foi fortemente acelerada com o oportunismo trazido pela Copa, e, por outro lado, por causa dela só agora ganhou visibilidade. A Copa é passageira, muitos queriam que ela não viesse[5], mas ela veio, mas da mesma forma ela se despedirá. Porém, irá para um outro lugar. E da mesma forma a FIFA e suas corporações vão passar por cima de condições e condicionantes, assim como fez no Brasil[6]. Ou será muito diferente? Eu não apostaria. Mas, independentemente disso, quem ganha com esse jogo? A especulação imobiliária e o poder corporativo sempre estão a postos diante do menor vacilo da resistência ou brecha que passou despercebida. Talvez como resposta a isso é que, desde 2013, a confluência de décadas de mobilizações vêm tomando não só às ruas do Brasil, mas escrevendo o que poderá ser um marco histórico para o país[7].

Os grandes avanços promovidos por todos os bens que a tecnologia e a produtividade puderam nos proporcionar, agora estão nos presenteando com os deleites de uma vida menos árdua, mas, por outro lado, escondendo de nós mesmos a crescente futilidade na qual está assentada a nossa vida coletiva e individual. Sintoma disso é que à mediada que vemos expandir incomensuravelmente as nossas possibilidades técnicas e tecnológicas, todas elas potencialmente instrumentos de grandiosidades jamais alcançadas na história da humanidade, também contemplamos uma expansão, quem sabe proporcional, dos reis e rainhas de nossos camarotes [8] [9]. O que a especulação imobiliária e as grandes transnacionais têm a ver com isso? Elas estão sofisticadamente alcançando, finalmente, a consolidação de estados dentro dos estados. Enquanto no centro deles desfrutamos as fantasias promovidas pelo Estado-corporação; às suas margens, o nosso mais fantástico aparato criminalizador, violento e opressor constrói um grande, eficiente e permanente Estado-exceção[10] [11] [12] [13] [14].

Enquanto os agentes do sistema rompem leis e direitos que garantem a manifestação e moradia, por exemplo, aqui em Porto Alegre, seis influentes militantes estão sendo processados por formação de milícia, em uma clara tentativa de reprimir o direito à resistência[15] [16]. No nosso vídeo-documentário, podemos ver que até o “doutor Péricles” ficou sem palavras ao tentar resgatar em seu doutoral conhecimento elementos que justificassem a selvageria que somente as normas podem assegurar serem civilizadas.

Corremos, corremos e corremos; lutamos, lutamos e lutamos para finalmente chegamos bem aqui: à barbárie. A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e Olimpíadas (ANCOP), ancorada em trabalhos realizados em parceria com a Repórter Brasil e a ONG britânica Institute for Human Rights and Business, estima que entre os crimes da Copa estão milhares de famílias removidas ou expulsas de suas casas e territórios para a construção de estádios, avenidas, estacionamentos ou shoppings, dentre outras tantas violações dos direitos humanos[17][18]. Além disso, nesse processo, a criminalização dos movimentos sociais e o acirramento da violência institucional cometida pelos aparelhos repressivos do Estado vêm tornando-se fatos cotidianos [19][20][21]. A banalização do mal nossa de cada dia. Até a subserviência da polícia às corporações conseguiu tornar-se ainda mais explícita com a chegada da corporação FIFA e seus patrocinadores[22][23]. Não é por acaso que na votação para escolher a pior corporação do ano – concurso realizado todos os anos pelo do Public Eye Awards (“Nobel” da vergonha corporativa mundial) – a FIFA ficou em primeiro lugar no Brasil e em terceiro lugar em nível internacional[24][25].

A Copa FIFA 2014 no Brasil é a Copa das Copas[26]? Não sei. Talvez seja. Que bom que fosse. Que lindo seria abrirmos as portas do nosso país para recebermos povos, cultos e culturas estrangeiras, estranhas, forasteiras. Que bom que pudéssemos pensar no Outro como exterioridade, não como colonizável, comercializável, usurpável. Que fantástico seria o esporte fazendo convergir a diversidade. Que incrível seria se fosse o gol – ao invés do Napalm – o único instrumento de vitória. Que lindo seria fazermos da pluralidade um meio de produzirmos nossa singularidade. Que fantástico se somente a bola – e não o petróleo e a natureza – fossem instrumentos de cobiça. Que lindo seria a paixão ao invés do merchandising. Que maravilhoso seria… Mas é?

Eu imagino uma Copa das Copas em que a elite pudesse vaiar não a qualidade deplorável das áreas VIP’s dos estádios, mas sim o fato de os operários que construíram esses lindos coliseus só poderem ver os jogos de seus casebres na periferia [27]. Que bom seria se nessa Copa, a “Copa de todo mundo”[28], não houvesse o sangue e suor de trabalho escravo[29]. Eu imagino uma Copa das Copas em que os territórios em torno dos estádios fossem espaços de encontro, não de exceção[30]. Eu imagino uma Copa das Copas que não sirva para gerar riqueza, mas para enriquecer o povo. Eu imagino uma Copa das Copas como um lugar onde se possa inventar e ensinar uma Democracia, uma democracia democrática, não a das armas e dos batalhões de Choque. Eu imagino uma Copa das Copas em que as mulheres não sejam a mercadoria em jogo[31]. Eu imagino uma Copa das Copas em que as mobilizações não sejam reprimidas, mas incentivadas, afinal, queremos expor ao mundo o “nosso” Brasil, o Brasil de “todo mundo”. Será mesmo que é assim?[32].

Onde está esse Brasil? O Brasil que eu conheço cheira a sangue e gás lacrimogêneo[33]. O Brasil que eu conheço procura até hoje seus Amarildos. No Brasil que eu conheço, a pobreza continua sendo uma questão de polícia. No Brasil que eu conheço, a miséria – não só a econômica – ganha de goleada. Mas o Brasil que eu conheço, não é o Brasil de todo mundo, porque muita gente – no Brasil que eu conheço –, só pode conhecer o “Brasil de todo mundo” através do que 11 famílias – que controlam os meios de comunicação públicos – querem que seja o Brasil[34] [35]. Por isso, no Brasil que eu conheço, só há dois brasis: um da vaia e o outro da Copa das Copas. Porque no Brasil que eu conheço só há duas formas de pensar: ou a favor ou contra; ou certo ou errado; ou pacífico ou vândalo. Enfim, no Brasil que eu conheço só a mídia marca gol de placa.

Pra mim, a Copa do mundo que o mundo perdeu em Porto Alegre, essa sim é a Copa das Copas[36]. Porque atrás das cortinas sempre há algo que não esvanece, algo que permanece mesmo quando as vuvuzelas e alegrias forem novamente substituídas pelo som dos automóveis agressivos e apressados ou pela violência e hostilidade de cada um que tenta matar para sobreviver. A Copa que o mundo perdeu continua[37]. Mesmo quando a outra Copa for embora – a Copa pequena e passageira – o legado da Copa do mundo que o mundo perdeu em Porto Alegre permanecerá: continuarão morrendo os filhos e filhas de Sheilas, homens e mulheres, Zés e joãos esquecidos e expulsos para um canto qualquer de tantas Faixas de Gaza espalhadas aqui e acolá[38] [39] [40] [41].

 

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[1] [ANCOP: Copa para quem? |LEG: ESP/ING/ALE/ITA/POR] https://www.youtube.com/watch?v=HmoLZBtqQ3c

[2] [ESPN: Desapropriação das obras da copa] https://www.youtube.com/watch?v=YqZlmgsmmXE

[3] [MEMÓRIA LATINA: Marcha de movimentos sociais de Abertura da Copa no Rio de Janeiro|LEG: ESP/POR] https://www.youtube.com/watch?v=m3o6_xFbxa4&feature=youtu.be

[4] [ANTROPOTV: FIFA GO HOME! O Mundial desde Porto Alegre] https://vimeo.com/98370600

[5] [Don't come to Brazil |LEG: ESP/ING/POR] https://www.youtube.com/watch?v=Vrr0gLHWKrA

[6][Yes, you can still go to the World Cup – IF |LEG: ESP/ING/POR] https://www.youtube.com/watch?v=-8Zrxr8r-fY

[7] [Filme: “A PARTIR DE AGORA - As jornadas de junho no Brasil”] https://www.youtube.com/watch?v=3dlPZ3rarO0

[8] [TVFOLHA: A copa VIP dos “Yellow Blocs” |LEG: ESP/POR] https://www.youtube.com/watch?v=0Zkp1C9ucrc

[9] [VEJA: Os 10 mandamentos do rei do camarote] https://www.youtube.com/watch?v=atQvZ-nq0Go&feature=kp

[10] [TVFOLHA: Repórteres falam como a brutalidade policial marcou o último protesto (2013)|LEG: ESP/ING/POR] https://www.youtube.com/watch?v=W6QVLE8PQJ8

[11] [PM atira em manifestantes que pediam não violência (2013)] https://www.youtube.com/watch?v=u3-PWM9uuGI

[12] [Manifestante desarmado se coloca na frente do Choque (2013)] http://www.youtube.com/watch?v=ZqBq2RSwKCQ

[13] [Manifestantes contrários à Copa são agredidos em Porto Alegre (2012)] http://www.youtube.com/watch?v=MHJ_lAoI_0g

[14] [PM de Porto Alegre prende pessoas por gravarem violência policial |LEG: ING/POR] https://www.youtube.com/watch?v=80fxj6jfQBI#t=21

[15] [PÚBLICA: No Rio Grande do Sul, juiz instaura processo contra manifestantes] http://apublica.org/2014/06/no-rio-grande-do-sul-juiz-instaura-processo-contra-manifestantes/

[16] http://jornalismob.com/2014/05/16/bloco-de-luta-divulga-carta-aberta-sobre-denuncia-criminal/

[17] http://www.megasportingevents.org/pdf/Reporter-Brasil-MSEs-Human-Rights-Risk-Areas.pdf

[18] http://www.portalpopulardacopa.org.br/index.php?option=com_k2&view=item&id=586:carta-do-i-encontro-dos/das-atingidos/as

[19][On the Outside of the Stadiums - Brazil 2014] https://www.youtube.com/watch?v=M_yys4zyfEo

[20] [Violado o direito de protestar em Porto Alegre] http://vimeo.com/98591837

[21][PM do Rio espanca manifestantes no Ato Fifa Go Home] https://www.youtube.com/watch?v=oF96qtMs-ew

[22] [Recorte de muitos vídeos mostrando a violência institucional no país] http://vimeo.com/82389104

[23] [Mas que Copa?!] https://www.youtube.com/watch?v=uFYB4cgpUOk

[24] http://publiceye.ch/en/case/fifa/

[25] http://amigosdaterrabrasil.wordpress.com/2013/11/26/por-que-apoiamos-a-campanha-fifa-a-pior-corporacao-do-ano/

[26] [GOVERNO FEDERAL: Propaganda da Copa das Copas] https://www.youtube.com/watch?v=c7otMhcGdv8

[27] [Para mim, Copa não existe', diz mãe de operário morto na Arena Corinthians] http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/06/140623_mae_operario_copa_wc2014_lgb.shtml

[28] [COCA-COLA: Propaganda da Copa de Todo Mundo] https://www.youtube.com/watch?v=u-tp3SwitMY

[29] http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/06/140616_mp_denuncia_odebrecht_jf.shtml

[30] [Coronel da PM de Minas Gerais afirma que “o entorno do Mineirão é território FIFA”] https://www.youtube.com/watch?v=U65RQ1_rqok

[31] [CATARSE: Ato das mulheres na Vila Tronco contra a Copa] https://www.youtube.com/watch?v=vH2h_K1Ah4I&list=TLPLSHMSZ2ZId9PsF_uJTDI6A_oky23kh6

[32] [CATARSE: Choveu bomba em Porto Alegre (2013)] https://www.youtube.com/watch?v=yhKkpCAiY5w

[33] [PM joga bomba de gás lacrimogênio dentro de apartamento de pessoas que olhavam a manifestação em São Paulo (2013)] https://www.youtube.com/watch?v=lUIQJQloJlI

[34] [INTERVOZES: A Verdadeira história da mídia brasileira] https://www.youtube.com/watch?v=KgCX2ONf6BU

[35] [Canal argentino debocha da hipocrisia dos meios de comunicação brasileiros] http://www.youtube.com/watch?v=lTHtk3CGOrc

[36] [Os Estrangeiros da Vila Tronco |LEG: ING/POR] http://www.youtube.com/watch?v=Cj34SZpRhxE

[37] [CATARSE: Bloco de Luta e Comitê Popular da Copa na Vila Cruzeiro] https://www.youtube.com/watch?v=FS_f_sRUX9I

[38] [ESPN: À Beira da Copa num Porto pouco Alegre | Parte I] http://www.youtube.com/watch?v=I0g_ynaskr4

[39] [ESPN: À Beira da Copa num Porto pouco Alegre | Parte II] http://www.youtube.com/watch?v=sbjEGceHjmA

[40] [ESPN: À Beira da Copa num Porto pouco Alegre | Parte III] http://www.youtube.com/watch?v=SodzvALBR0M

[41] [ESPN: À Beira da Copa num Porto pouco Alegre | Parte IV] http://www.youtube.com/watch?v=dHB9IJkzCNo

 

 


Amigos da Terra comemora o resultado de um grande jogo: 33 Direitos Humanos x 14 Corporações Transnacionais

Em GENEBRA, dia 26 de Junho de 2014: Amigos da Terra Internacional e outros movimentos sociais celebraram uma grande vitória, há muito esperada, que desafia o poder das corporações e começa a responder às demandas dos/as defensores/as ambientais. Finalmente chegou o tempo de avançar, de diretrizes voluntarias sobre empresas e direitos humanos, para a um sistema internacional legalmente vinculante para julgar as corporações por suas violações aos direitos humanos e dos defensores ambientais. Imagem

No dia 26 de Junho, a maioria das nações membro do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDH) votou SIM para uma resolução apresentada pelo Equador e a África do Sul, para dar inicio à elaboração de um tratado internacional legalmente vinculante que regule as atividades das Corporações Transnacionais em matéria de Direitos Humanos [1].

A resolução recebeu votos afirmativos de 20 membros, 13 abstenções e 14 votos contrários. A iniciativa para estabelecer um instrumento internacional legalmente vinculante foi apoiada por mais de 600 organizações, 400 indivíduos, 85 países, pelo Subcomitê de Direitos Humanos do Parlamento Europeu e pelo Vaticano. Quando a China e a Índia, junto aos países do Sul, representando assim mais da metade da população mundial, expressaram oralmente seu apoio à resolução, a plenária pode sentir a vitória antecipada nos últimos minutos da manha da quinta-feira (26), durante a 26a sessão do CDH em Genebra.

Jagoda Munic, Presidente de Amigos da Terra Internacional, disse: “esta foi de fato uma vitória histórica e significante, além de muito necessária para aqueles que defendem o meio ambiente, os direitos humanos e os modos de vida sustentáveis. Mostra que a construção de movimento pode realmente mudar a correlação de forças, e ao mesmo tempo expor o compromisso de países como estados Unidos e da União Européia com a agenda das corporações”.

Os Estados Unidos e a União Européia não apenas se opuseram a proposta como, como também pressionaram demais países a votar a seu lado, ameaçando-os com perdas financeiras e de ajuda ao ‘desenvolvimento’. Logo após a apresentação da resolução por Equador e África do Sul, os Estados Unidos reforçaram, antes do voto, que: “este instrumento legalmente vinculante não será vinculante para aqueles países que votarem contra”, expondo mais uma vez sua falta de compromisso político com obrigações vinculantes para as grandes empresas quanto às injustiças sociais e ambientais por elas praticadas, e o seu desrespeito ao processo democrático.

“De acordo com os Estados Unidos, a União Européia e a Noruega – que liderava um grupo de trabalho sobre Diretrizes Voluntarias para empresas e direitos humanos – quanto mais falarmos sobre a necessidade de um tratado vinculante, mais empresas seriam desencorajadas a tomar ações voluntárias. Nós acreditamos no oposto: ainda que ambas as propostas de resolução em pauta na 26a sessão do CDH sejam complementares, quanto mais adiarmos um tratado vinculante, mais corporações seguirão agindo na impunidade e mais direitos dos defensores ambientais serão abusados”, disse Anne Van Schaik, ativista pela responsabilização do setor financeiro de Amigos da Terra Europa.

Para Lucia Ortiz, coordenadora do programa de Justiça Econômica de Amigos da Terra Internacional, “foi um grande sucesso dos movimentos e para nós que temos trabalhado com aliados por muito tempo por um tratado internacional legalmente vinculante para trazer as corporações à justiça e deter sua liberdade de agir na impunidade”, se referindo a uma nova esperança para a lutas contra a arquitetura de impunidade que representam os tratados de livre comercio e acordo de investimentos que beneficiam as transacionais sem que hajam obrigações vinculantes para controlá-las sob as leis internacionais.

Amigos da Terra Internacional fez parte dessa vitoria histórica. Atuou junto do coletivo Aliança por um Tratado (2), com trabalho de incidência em Genebra e nas principais capitais na União Européia, África do Sul, Costa Rica, México, Brasil, Argentina e outros países. Na semana de mobilização, organizada por ONGs e a Campanha Desmantelar o Poder Corporativo (3), entre 23 e 27 de Junho, membros de Amigos da Terra da Europa, Nigéria, Uruguai, Palestina, Guatemala, Brasil e a Radio Mundo Real, apresentaram casos na sessão especial do Tribunal Permanente dos Povos (4), em eventos paralelos à sessão do CDH na ONU e em protestos de rua, denunciando abusos ao direitos humanos pelas corporações como Shell, Mekorot, Hidralia, Philip Morris e FIFA.

Defensores ambientais merecem e demandam um tratado internacional legalmente vinculante para levar as corporações às cortes de justiça. Mas também demandam acesso das comunidades afetadas à justiça, o direito de protestar pacificamente, reparação e restauração dos danos ao meio ambiente e modos de vida, e a responsabilização criminal dos dirigentes das corporações (5).

“Agora podemos dizer com orgulho que o mundo pode vir a ser um lugar melhor para nossos filhos. Entretanto, não há duvidas que eles deverão seguir na luta por assegurar essa vitória, tanto quanto nós seguiremos lutando juntos aos movimentos sociais e estados para implementar essa resolução em criar um tratado internacional legalmente vinculante de agora em diante” disse Alberto Villarreal ativista sobre comercio e investimentos de Amigos da Terra Uruguai.

 

CONTATOS::

Jagoda Munic, Presidente de Amigos da Terra Internacional: +385 98 17 95 690 (na Croácia) ou jagoda@zelena-akcija.hr

Lucia Ortiz, Coordenadora do Programa de Justiça Econômica e Resistência ao Neoliberalismo de Amigos da Terra Internacional: + 55 48 99150071 (no Brasil) ou lucia@natbrasil.org.br

Paul de Clerck, Coordenador do Programa de Justiça Econômica de Amigos da Terra Europa (em Bruxelas): +32 494 38 09 59 ou paul@milieudefensie.nl

Alberto Villarreal, ativista na área de comercio e investimentos de Amigos da Terra Uruguai (no Uruguai): +598 98 556360 ou comerc@redes.org.uy

Galeria de Fotos por Victor Barro, Presidente de Amigos da Terra Espanha:

https://picasaweb.google.com/vbarro/MobilizationWeekUNHRCGeneva2014?authuser=0&feat=directlin

 

NOTAS:

  1. A resolução aprovada pelo CDH da ONU (Res. 22 / Rev.1) está on line em:

http://ap.ohchr.org/Documents/E/HRC/d_res_dec/A_HRC_26_L22_rev1.doc

  1. Para maiores informações, ler:

http://www.ipsnews.net/2014/06/eu-aims-to-scuttle-treaty-on-human-rights-abuses/

  1. Para informações sobre a Aliança por um Tratado, visite: www.treatymovement.com e para a Campanha Global Desmantelar o Poder Corporativo, visite: www.stopcorporateimpunity.org
  2. Mais informações sobre a sessão de Genebra do tribunal Permantente dos Povos: http://www.realworldradio.fm/7715-desmantelando-la-arquitectura-de
  3. Amigos da Terra Internacional registrou mais de 100 incidentes de violência contra defensores ambientais e violações de seus direitos em 27 países no período de Novembro de 2011 a Outubro de 2013, de acordo com o informe “Defendermos o ambiente, somos defensores dos direitos humanos”, lançado num evento paralelo à sessão do CDH em 26 de Junho, disponível em: http://www.foei.org/press/archive-by-subject/economic-justice-resisting-neoliberalism-press/un-treaty-urgently-needed-for-human-rights-defenders-says-new-report/

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