Os cassetetes, a ignorância e a ambição

A tríade truculência, ignorância e ambição talvez seja o mais perverso e destrutivo conjunto de adjetivos. Quando usados juntos, a combinação torna-se um tanque de guerra desgovernado. Não precisamos entrar em detalhes sobre o ocorrido na noite da quinta-feira passada (4), quando manifestantes foram espancados pela Brigada Militar ao protestarem contra a privatização dos espaços públicos de Porto Alegre. Para além do que vem sendo discutido pela imprensa corporativa, o ponto crucial dessa questão não é o fenômeno pontual do dano a um boneco de plástico, mas sim entender o que legitima ações truculentas como a desencadeada pela Brigada Militar em defesa do referido boneco.

Pois bem, a legitimação da violência é concedida pelas outras duas componentes da tríade: ignorância e ambição. Mas, de fato, a grande protagonista é a ambição. Somente ela persevera sobre os escombros deixados pela truculência, cuidadosamente ocultados pela sombra da ignorância.

A derrubada do boneco foi um ato simbólico contra tudo aquilo que a Copa do Mundo no Brasil e suas corporações apoiadoras representam em nossa cidade e em nosso país. De fato, tudo aquilo que a população de Porto Alegre, há tempos, vem sofrendo como consequência do avanço dos interesses corporativos sobre os espaços públicos ganharam corpo na forma de um boneco de plástico. Isso porque, os males gestados, fomentados e reforçados pelos interesses corporativos são fantasmas inexistentes – porém onipresentes – que estão levando e corrompendo, um a um, nossos espaços físicos, nossos territórios, nossos shows e nossas feiras. No entanto, as corporações e seus ditames corruptos e corruptores não levam de nós, pois os espaços continuam lá, à nossa disposição, apenas são colocados os seus bonecos infláveis, seus chafarizes, suas logomarcas, suas bandeiras e o seu preço. Não podemos esquecer que preço é relativo. Na melhor das hipóteses é meramente monetário. Na mais provável, é econômico. Na mais perversa, é político. O preço monetário refere-se a uma simples troca de mercadorias, mediada por um meio simbólico. O econômico refere-se à própria lógica em que essa troca será efetuada. Já o preço político representa a totalidade em que lógicas, mercadorias e símbolos agirão, interagirão e reagirão. Dentro do político, as opções, possibilidades e alternativas não são escolhidas, mas são criadas. Daí advém a importância desse campo. A partir do político, o animal humano torna-se verdadeiramente humano; torna-se capaz de construir o mundo, a mundaneidade, a realidade, a felicidade e a alegria. Dessa forma, o preço político pode ser infinitamente alto, infinitamente opressor e infinitamente limitador das potencialidades de criar, recriar e subverter realidades.

No avanço desse processo de restrição opressora, pouco a pouco, nossa cidade vai ficando cada vez mais pobre, mais estreita, mais vazia e mais triste. Estamos pagando o alto preço de uma transação pautada pela ambição. Infelizmente, essa transação não é somente monetária ou econômica, mas, acima de tudo, é política. Porém, a ignorância não deixa compreender que, nessa transação, as mercadorias somos nós, nossos estados, nossos governos, nossa vida e nossa imaginação. Quem foi vendado pela cegueira da ignorância, já não pode distinguir entre eles e nós. Já não sabe onde começa o boneco e termina o porto-alegrense. Entretanto, mais peçonhento do que a perda da identidade, é conformar-se com cenas e cenários ensangüentados em que o Estado e as corporações confundem-se, dançam juntos e beijam-se no mesmo ato. É uma abominação homens treinados [adestrados] às custas do Estado agredirem e violentarem os cidadãos reais que sustentam esse mesmo Estado. Cenas como essas, transpõem, para muito além, as margens da esquizofrenia. Tudo em nome da “defesa” de um patrimônio (herança paterna). Mas quem é o pai ausente dessa herança, em nome da qual se legitima o sangue no chão? Quem é esse pai que coloca cidades, estados e países à mercê de forças desterritorializadas que se corporificam e se manifestam no cassetete que espanca, na cerca que delimita, na instituição que excomunga, nos livros que doutrinam, na lei que pune e, principalmente, nos homens protopolíticos que representam – não a nós –, mas esse patrimônio expatriado, patrimônio de um pai promíscuo que deita e deleita-se com a ignorância de todos aqueles que servem a essa ambição truculenta e insaciável? O pai desses males é a razão corporativa que escraviza o homem, sacrifica a vida, necrosa a alma e perverte o Estado. Foi um fetichismo pervertido que deu alma ao boneco. Dignificado, o objeto passou a ganhar direito de proteção. O símbolo da ambição-truculenta-mercantil tornou-se vítima. Do outro lado da barricada, o povo foi coisificado, apanhou para ser purificado do pecado de confrontar o patrimônio.

Na herança do pai ninguém mexe. Ela não é feita para ser questionada, mas sim idolatrada por todos aqueles que aceitam a ignorância de servir a uma ambição direcionada e coordenada por alguns poucos que não medem esforços para cercear as nossas possibilidades de tornarmos esse porto, um porto mais alegre como outrora.

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